Bassma
Kodmani Perante a mundialização, o mundo árabe fractura-se. Alguns Estados navegam na modernidade, outros são plenamente afectados pela concorrência dos países emergentes. Tudo isto num contexto de importância crescente do islamismo. O statu quo não é uma opção, considera Bassma Kodmani. Entrevista. Enjeux Internationax - O mundo árabe é frequentemente descrito como uma região ultrapassada pela mundialização e abatida por deficiências económicas e políticas importantes. Como é este se inscreve na nova cartografia mundial que revela o crescente ímpeto dos países emergentes? Bassma Kodmani
- O facto é que alguns países árabes fazem parte
dos países emergentes! É necessário distinguir,
com efeito, entre os países exportadores de petróleo e
os países não petrolíferos e, entre estes, distinguir
os que são industrializados dos outros. Os países do Golfo
estão objectivamente integrados no processo de mundialização.
Influem os fluxos financeiros internacionais, sobretudo desde o novo
impulso absolutamente fenomenal do preço do petróleo.
Os seus recursos consideráveis permitem-lhes sentar-se à
mesa dos grandes, candidatar-se à Organização Mundial
do Comércio (OMC) e participar nas grandes negociações
financeiras internacionais. No entanto, os países do Golfo revelam-se frágeis. A presença de fortes minorias religiosas num contexto de confronto entre sunitas e xiitas e o recurso maciço à mão-de-obra imigrada podem constituir riscos consideráveis para o modelo que descreve. Alguns destes países
têm uma população pouco numerosa. A questão
social não se coloca: há aí trabalho para toda
a gente. As disparidades existem, mas não suscitam por enquanto
o questionamento do modelo de produção. Se este modelo
fosse aniquilado, então haveria realmente um problema. Para se
protegerem contra este eventual cenário, os emiratos iniciaram
uma diversificação maciça, saltando directamente
da extracção petrolífera para a economia de serviços
(hotelaria, banca, finança), para as tecnologias modernas, para
os média e centros de conferência. Os serviços já
são mais importantes do que o petróleo em países
como Bahrein ou o Emirato de Dubai. E a questão religiosa? A questão religiosa é obnubilada pela riqueza. A concretização de uma modernização rápida, fundada na economia do conhecimento, é encarada como um meio de luta contra os conservadores. Assiste-se assim a uma verdadeira corrida contra-relógio para vencer as forças reaccionárias. A Arábia Saudita também caminha nesse sentido? A Arábia Saudita toma
mais precauções, porque as suas instituições
religiosas são extremamente potentes e tem também preocupações
de segurança nacional autónoma diferentemente dos pequenos
Estados do Golfo que, nesse aspecto, dependem totalmente dos Estados
Unidos. Mas verifica-se cada vez mais uma mudança de direcção
na família real com a chegada de uma jovem geração,
que tem uma verdadeira visão dos interesses estratégicos
para o futuro. Mesmo o rei sabe que o preço do petróleo
pode diminuir e prevê mesmo o fim da era do petróleo e
a necessidade de passar a uma outra forma de economia de serviços.
A sua vontade de modernização passa por uma promoção
dos direitos das mulheres nas áreas em que há espaço
de abertura: a educação e o emprego. Há cada vez
mais mulheres a assumirem cargos de chefes de empresas ou de responsabilidade
sindical. As forças conservadoras hesitam em lançar-se
num confronto com o rei. A China é um aliado ou um rival neste contexto? Para determinados países,
a China representa um perigo considerável. No Egipto e, de certo
ponto, na Jordânia, a invasão dos produtos chineses provoca
o encerramento de fábricas, o aumento do desemprego e a pobreza.
A situação torna-se explosiva. Estes países assumiram
compromissos comerciais com a União Europeia e, neste mundo de
comércio livre, irão passar por uma crise muito profunda.
Alguns evocam um modelo chinês
para o mundo árabe... Será que Iraque não vai influenciar fortemente a segurança da região e as suas possibilidades de arranque económico? Esse risco existe e os países ribeirinhos interrogam-se sobre a maneira de se protegerem contra uma crise incontrolável. A Arábia Saudita constrói um muro nas suas fronteiras, mas os pequenos países do Golfo não escolheram um sistema de defesa credível. Os seus exércitos têm pouco peso e não existe uma real coordenação no Golfo. Estes Estados entregam assim o seu destino aos Estados Unidos em termos de defesa externa e muitas vezes a companhias privadas para a sua protecção interna. Este sistema perdurará enquanto Washington tiver interesses petrolíferos ou financeiros vitais na região. A possibilidade de abertura política do mundo árabe não estará comprometida pelo perigo islâmico? Estamos aqui perante a incógnita
da quadratura do círculo: se se abre o sistema político,
abre-se a porta aos islamitas; se se mantiver o autoritarismo, reforça-se
os islamitas. Com efeito, o sistema político actual fomenta o
islamismo. Num contexto autoritário e privado de um verdadeiro
pluralismo, os islamitas são os únicos focos de problemas
sociais, mas isto não quer dizer que eles proponham um modelo
económico coerente ou convincente. Em todo o caso, não
põem em causa o modelo económico de mercado. Conclusão:
não tocar no statu quo e preservar os sistemas autoritários
porque a alternativa seria pior? Ideias recolhidas por Jean-Paul Marthoz. Quando o PNUD suscita a controversa A partir de 2002, o PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) publicou vários relatórios sobre o desenvolvimento humano e a governação no mundo árabe. Muito críticos em relação aos diversos poderes existentes, estes relatórios suscitaram uma forte polémica. O relatório de 2003 intitulava-se “Rumo a uma sociedade do saber” e a edição de 2005 abordava a questão da promoção da mulher. Para saber mais
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