Quando Harry Potter for chinês
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Antoaneta Bezlova
Antoaneta Bezlova é correspondente da agência Inter Press Service na China (IPS, Roma).


A China é talvez a quarta economia mundial, mas não tem no seu historial sucessos como Harry Potter ou o Código Da Vinci. "Isso vai mudar", anunciam as autoridades. Descoberta.

"Temos um grande défice no domínio cultural", reconhecia em Maio de 2006 Zhao Qizheng, antigo ministro do Gabinete de Informação do Conselho de Estado. O governo chinês espera efectivamente que isso mude. O desenvolvimento das indústrias culturais é considerado por Pequim como a próxima etapa na afirmação de potência mundial.
Tendo como data de atracção os Jogos Olímpicos de 2008, os próximos anos deveriam dar à China a oportunidade de demonstrar que é muito mais que o grande ateliê do planeta. "É tempo de sermos melhor compreendidos pelo resto do mundo", declarou Du Ruiquing, investigador da Universidade de Estudos Internacionais de Xian. Pequim está seriamente decidida a utilizar as suas produções culturais para melhorar a sua imagem no exterior, no âmbito de uma estratégia diplomática global que visa apresentar a China como uma "potência suave" e diferenciá-la dos Estados Unidos, cuja atitude é considerada austera e autoritária.
Nos corredores diplomáticos, desde a América Latina até à Ásia, passando pela África, os políticos chineses tentaram promover a imagem de um país harmonioso e pacífico, guiado eticamente pelos valores confucianos de aceitação universal e de coexistência pacífica. A cultura desempenha um papel importante neste processo de persuasão.
"Para ser global, a China deve aperfeiçoar a sua política cultural e reconstruir a imagem da cultura chinesa", notava já em 2005 um editorial do Diário do Povo, o órgão do Partido Comunista Chinês, que defendia a criação de produtos culturais "made in China". "A China é incapaz de criar produtos culturais comparáveis às séries dramáticas coreanas, às bandas desenhadas japonesas ou às animações de Disney", lamentava-se o jornal.

Ensinar o mandarim
A fim de apoiar a expansão da cultura chinesa no mundo, os gurus culturais do Império do Meio lançaram-se numa política maciça de divulgação da língua chinesa. Pequim anunciou a sua intenção de instalar 100 Institutos Confucius no exterior, a fim de ajudar os estrangeiros a aprender o mandarim. De acordo com o Ministério da Educação, há quase 40 milhões de pessoas a aprender chinês no mundo. Este número deverá atingir os 100 milhões em 2010. Na própria China, o número de estrangeiros que aprende chinês passou de 36 000 há dez anos para 110 000 hoje.
À medida que a língua é divulgada, a ofensiva cultural põe a tónica na edição. Os funcionários aguardam um título de sucesso que posicione claramente a China no mapa literário e leve os editores estrangeiros a aumentar os direitos de tradução.
O ano passado deu uma pequena ideia do que poderia acontecer num dos mercados mais dinâmicos do mundo: Penguin Books bateu um recorde chinês quando comprou por 100 000 dólares os direitos ingleses sobre o “best seller” literário de Jiang Rong, O totem da raposa.
Pequim sabe que os filmes, a música ou as artes plásticas podem ser artigos de exportação lucrativos e tenciona rivalizar seriamente com o Japão e a Coreia do Sul como "criador de tendências" da cultura popular na Ásia. Actualmente, de acordo com os números do Ministério da Cultura, as indústrias culturais japonesas e sulcoreanas representam 13% do mercado internacional, contra 6% da China e restantes países asiáticos.
Os funcionários chineses estão persuadidos de que após a quimera da indústria transformadora, o mercado cultural chinês será a próxima ocasião dourada para os investidores estrangeiros. Em 2004, o valor acrescentado total da indústria cultural era de 42 mil milhões de dólares, ou seja, 2% do Produto Interno Bruto chinês. Hoje, há quase 10 milhões de Chineses empregados neste sector.

Renascimento das tradições
Nos longos anos do reinado de Mao Tse Toung (1949-1976), o Partido Comunista Chinês incitava o povo a destruir as "velhas coisas": costumes, festivais, crenças e tradições. Hoje, o potencial da cultura e a atracção que esta exerce sobre milhões de turistas tem conduzido a um verdadeiro renascimento na China. Em 2006, o Conselho de Estado decretou o Dia da Herança Cultural. Foi elaborada uma lista das tradições "em perigo", incluindo o artesanato antigo e os rituais dos festivais. Deverão ser abertos novos museus e centros de atracção culturais antes dos JO de 2008.
Alguns intelectuais, no entanto, apelam à prudência. "Sou totalmente favorável aos produtos culturais produzidos na China", confia o escritor Hong Ying. "Contudo, não quero que sejam manipulados ao serviço de uma nova campanha política. Se os dirigentes chineses quiserem realmente promover a cultura, têm de começar por abolir a censura. É a condição essencial à emergência de ideias livres e ao choque de centenas de pensamentos".

© IPS.

Bollywood
A Índia é hoje o primeiro produtor de filmes do mundo. Embora as produções de Bollywood (contracção de Bombaí e de Hollywood) sejam em grande parte concebidas para o imenso mercado nacional e frequentemente muito tipificadas, exportam-se para o mundo inteiro, muito para além dos círculos da diáspora indiana. Os filmes indianos custam em média 30 vezes menos do que as produções de Hollywood.
O Brasil também exporta as suas famosas telenovelas, séries extensíveis produzidas pela gigante TV Globo, para muitos países latino-americanos, mas também para a África. Neste mercado, o Brasil está sobretudo em concorrência com o México, pátria do culebron (a grande serpente, alcunha dada às séries intermináveis). Ainda que estas produções do Sul rivalizem com Hollywood e tragam uma certa diversidade cultural, esta inscreve-se numa perspectiva essencialmente comercial que acentua a comercialização da cultura.