Face à secularização
e à concorrência evangélica, a Igreja Católica
investe no Brasil e em África, mas aposta sobretudo na Ásia.
Panorama da geopolítica vaticana.
Em Junho passado, o Ministro
chinês da Construção decretou que todas as cidades
chinesas deviam restabelecer as pistas para bicicletas que tinham sido
suprimidas nestes últimos anos para beneficiar o desenvolvimento
automóvel. Todos os funcionários foram avisados que deviam
ir para o trabalho de bicicleta ou nos transportes públicos.
O ministro estava aparentemente decidido a recuperar para a China o
tão valioso título de “Reino das bicicletas”.
No entanto, terá sem dúvida muito que lutar contra alguns
dos presidentes de câmaras municipais mais potentes da China,
para quem o automóvel se tornou num símbolo de sucesso
económico e político, bem mais apreciado que a banal bicicleta.
São matriculados diariamente em Pequim mais de 1000 novos automóveis,
o que agrava os engarrafamentos que já são desesperantes.
É apenas um exemplo entre outros, na onda aparentemente ilimitada
de estatísticas impressionantes, que nos vêm da China.
A dimensão do país continua a surpreender o resto do mundo,
mas para qualquer pessoa interessada no desenvolvimento económico
sustentável, o que se passa na China é o assunto de actualidade
mais importante no mundo.
Se 10% dos 60 milhões de pessoas que vivem no Reino Unido escolhessem
reduzir o seu consumo energético de 1%, a sua acção
seria pouco perceptível à escala mundial. Mas se 10% do
milhar de milhão e 300 milhões de Chineses aproveitarem
a sua prosperidade crescente para aumentar o seu próprio consumo
energético de 1% por ano (comprando um automóvel, comendo
mais carne ou adquirindo um apartamento maior), então o mundo
deverá ter cuidado, porque essa opção afectaria
tanto os Europeus como os Chineses. Num mundo interligado e interdependente,
as emissões de gás carbónico da China são
as nossas próprias emissões.
O regresso do bordão
Os políticos chineses
falam com orgulho patente dos seus grandes sucessos, em especial de
terem permitido a mais de 250 milhões de rurais sair de uma miséria
absoluta e encontrar emprego numa economia em pleno desenvolvimento.
Os níveis de vida melhoraram nitidamente e a esperança
média de vida passou de 35 anos em 1949, quando os comunistas
tomaram o poder, para 72 anos em 2004.
Estes progressos sociais decorrem principalmente das fortes expansões
económicas, com uma taxa de crescimento anual de cerca de 10%
nestes últimos 15 anos. Mas esta evolução tem como
consequência a destruição ambiental, tal como esta
ameaça hoje o modelo de crescimento chinês. Como a revista
Natureza notou em 2005: “Nas duas últimas décadas,
as perdas provocadas pela poluição e os danos causados
ao ambiente representam anualmente de 7 a 20% do Produto Interno Bruto”.
O impacto sobre a saúde humana foi particularmente grave. Na
China, quase 300 000 mortes por ano são atribuídas a problemas
de qualidade do ar. E o número de cancros é aí
um dos mais elevados no mundo.
A situação poderá ainda vir a ser pior nos próximos
anos antes de uma eventual melhoria. A China constrói uma central
térmica a carvão de dez em dez anos. Em 2005, aumentou
a sua produção energética de cerca de 65 000 megawatt,
o que equivale a toda a capacidade energética actual do Reino
Unido. O país já é o segundo maior emissor de gases
com efeito de estufa e um dos consumidores de energia mais ineficazes
do mundo. As suas emissões por unidade do PIB são dez
vezes superiores à média dos países desenvolvidos.
Um apocalipse ecológico
De nada serve meter a cabeça na areia e relativizar: assiste-se
hoje, na China, a um verdadeiro apocalipse ecológico.
Os líderes chineses são, no entanto, os primeiros a reconhecê-lo.
Há alguns meses, aquando da apresentação do 11.º
Plano Quinquenal, o Primeiro-Ministro, Wen Jinbao, lançou uma
mensagem excepcionalmente dura: a China não pode continuar a
seguir a via do “crescimento primeiro e da resolução
do desperdício ambiental em seguida” - uma via, acrescentou
ele, que foi traçada pelo Ocidente. O país terá
que aprender a crescer de maneira duradoura, ainda que isso signifique
crescer mais lentamente.
Os objectivos do governo para os próximos cinco anos são
impressionantes e incluem, entre outras coisas, uma redução
de 10% dos poluentes (nomeadamente das emissões de dióxido
de sulfureto e das necessidades de oxigénio químico) e
uma diminuição de 20% do consumo de energia.
O desafio é imenso. Mas a China é capaz de avançar
a grande velocidade quando ela o decide: eliminou a utilização
de gasolina com chumbo em menos de dois anos (contra dez anos, ou mesmo
mais, no Reino Unido) e, recentemente, tornou obrigatórias normas
de emissão, para todos os automóveis novos, equivalentes
pelo menos às normas europeias.
Tudo isto garante uma batalha épica entre aqueles que vêem
o copo meio vazio e os que o vêem meio cheio. Os primeiros observam
a herança ambiental existente, acrescentam-na às enormes
pressões políticas e sociais que impulsionam o crescimento
da economia chinesa, independentemente do preço a pagar, e concluem
com um panorama terrivelmente sombrio. Os segundos não vêem
porque é que a China não se torna na nação
número um em termos de eficiência ecológica e como
o lugar privilegiado desta “evolução industrial
verde”, sobre a qual os líderes ocidentais gostam de perorar.
Mas admitem que para aí chegar será necessário
mais do que um decreto ministerial, que restitui à bicicleta
a aura de outrora na hierarquia dos sistemas de transporte “sustentáveis”.
Este texto foi publicado
inicialmente na Greening the Dragan: China’s search for a sustainable
future, um suplemento da revista Green Future.
www.greenfutures.org.uk
www.forumforthefuture.org.uk
O país dos recordes
“O milagre económico
chinês terá brevemente o seu fim uma vez que o ambiente
não poderá continuar nesse ritmo”. Cinco das dez
cidades mais poluídas do mundo são chinesas; a chuva ácida
cai num terço do território; metade da água de
sete dos maiores rios chineses é totalmente inutilizável;
um quarto dos nossos cidadãos não tem acesso à
água potável; um terço da população
urbana respira um ar contaminado; menos de um quinto dos resíduos
urbanos é tratado de maneira ecologicamente sustentável”.
Pan Yue, Vice-Ministro do
Ambiente
Para saber mais
De HESSELLE Laure, « A china poderá salvar o mundo ?»,
Imagine, Setembro-Outubro de 2006, p. 8 a 14.
FILOU Emilie, Inside China
– The burning question, World business / Insead, 24 Outubro de
2006 www.worldbusinesslive.com
MABEY Nick e PARUSHERVA Diana, China’s climate choices, www.e3g.org
O estado do planeta em 2005.
Foco sobre a China e a Índia, Institut Worldwatch 2006.