Após anos
de conflito, Moçambique apresenta-se-nos como uma história
de sucesso. Mas o regresso à paz não resolveu tudo. A
política económica neoliberal poderá provocar tensões
sociais e étnicas que nem a guerra civil desencadeou. Entrevista.
Enjeux internationaux:
Moçambique é, por vezes, apresentado como modelo do Estado falido que conseguiu endireitar a situação.
Michel Cahen:
Moçambique nunca foi um Estado falido. Mesmo nos piores momentos
(1986-1988) da guerra civil, mesmo quando a rebelião da Renamo
(*) agia em 80% do território, o aparelho de Estado sempre existiu,
sobretudo nas cidades. O Estado estava em crise, mas, contrariamente
aos cenários liberianos ou congoleses, nunca se desmoronou. Isso
não significa que se possa falar de sucesso...
De onde vem então
esta imagem de uma história de sucesso?
O grande sucesso destes últimos quinze anos foi a passagem do
estado de guerra civil ao de paz. O momento decisivo neoliberal em tempo
de guerra (1984-87), cujo fracasso em termos sociais era patente no
final dos anos 80, teve de ser seguido, se não de uma verdadeira
democratização, pelo menos de uma "descompressão
autoritária": o partido único tornou-se partido hegemónico.
Como é sabido, Moçambique é um bom aluno do FMI
e tem, por conseguinte, boa imprensa nos meios de comunicação
social internacionais. Mas é necessário desconfiar das
percentagens – numa economia de mercado tão fraca, basta
um único grande investimento para alterar os números –
e da localização dos investimentos. Estes concentram-se
onde já existem infra-estruturas. O corredor de Maputo (no extremo
sul) vem largamente à cabeça, seguido modestamente do
da Beira (no centro sul) e, em menor escala, do de Nacala (a norte).
No entanto, as regiões mais isoladas, embora fortemente povoadas,
são negligenciadas. A estrutura herdada da colonização
– desde os portos do Oceano Índico até ao interior
fronteiriço com regiões de colonização britânica
(hinterland britânico) – não sofreu a menor alteração
e até se acentuou nos últimos anos.
Esta incapacidade do Estado
em desenvolver a economia rural poderia vir agravar as tensões
regionais. Por outras palavras, o que a guerra civil não conseguiu
em quinze anos, poderia a economia neoliberal fazê-lo, mas a custo
de um descontentamento social, que bem poderia ser de natureza étnica.
O Estado desenvolveu-se
negando a pluralidade das identidades étnicas. Não será isso uma fonte
de instabilidade?
Certamente! A Frelimo (*) passou de um projecto anticolonial,
quando surgiu em 1962, a um projecto cada vez mais marxista (de 1969
a 1977), depois oficialmente "marxista-leninista" (de 1977
a 1989), voltando, seguidamente, em 1989, antes da queda do Muro de
Berlim, a uma opção nacionalista. Este imaginário
nacional está bem presente, e mesmo hipertrofiado, entre as elites
da capital.
Esta escolha não está
isenta de riscos. Moçambique é um território que
foi traçado a machado após o Congresso de Berlim (1884-85/1891)
e não constitui necessariamente um espaço pertinente para
os povos aí inseridos. A preferência atribuída ao
português em relação às línguas maternas,
à indústria dos transportes e dos serviços em relação
ao desenvolvimento rural, está carregada de tensões étnicas.
Nas eleições
de 2004, a Frelimo obteve 60 a 65% dos votos, mas esta vitória
ofusca uma elevada abstenção e um recuo contínuo
do número absoluto de eleitores deste partido desde 1994. Este
abstencionismo reflecte uma exasperação das pessoas, o
que poderia culminar, não no reacender da guerra civil, mas em
tensões sociais muito fortes. A estabilidade do país é
hoje menos evidente.
É possível quebrar
a polarização entre a Frelimo e a Renamo?
A "sociedade
civil", ou seja os movimentos sociais aptos a desenvolver alguma
autonomia em relação ao Estado, continua a ser muito fraca.
A grande concentração das elites modernas apenas na capital,
a marginalização dos outros núcleos de elite do
Centro e do Norte à escala do "século colonial"
(1885-1975) e após a independência, tudo isso reduz a base
social para a emergência de uma terceira força. Não
a estou a ver, em todo caso nos próximos dez ou quinze anos.
No entanto, a Frelimo, embora seja dominada pelos grupos étnicos
do Sul, principalmente os Changanes, não é um partido
tribalista. Se o Estado conseguisse assegurar o progresso económico
e social a longo prazo e de forma regionalmente equilibrada, poderia
levar as populações a identificarem-se com esta República
e, talvez, fazer emergir "uma nação de nações",
uma superidentidade moçambicana das identidades de Moçambique.
Finalmente, um pouco à imagem da Grã-Bretanha que, longe
de ser uma simples federação, exprime a superidentidade
britânica das nações inglesa, gaulesa e
escocesa.
Como é que a comunidade
internacional pode contribuir para este processo?
Os doadores, como os investidores privados, deverão prestar a
máxima atenção para que as suas acções
e investimentos não agravem as tensões regionais. Devem
igualmente favorecer a emergência "de um Estado de promoção
social", o que, na periferia do capitalismo, é um desafio".
Frelimo
Frente de Liberação de Moçambique
Renamo
Resistência Nacional Moçambicana. Este antigo movimento
de guerrilha, apoiado na altura pela Rodésia do Sul, a África
do Sul e os Estados Unidos, tornou-se no principal partido da oposição
após os acordos de paz de 1992.