Eleições: Cidadãos e Igrejas mobilizam-se
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Colette Braeckman
Jornalista do jornal Le Soir (Bruselas), Colette Braeckman colabora igualmente no Le Monde diplomatique (París). Especialista da África, publicou nomeadamente Rwanda, histoire d'un génocide (1994), Le dinosaure, Le Zaïre de Mobutu (1991) y Les nouveaux prédateurs (2003), três obras publicadas nas edições Fayard.


Apesar da violência que reina no leste da RDC, a sociedade civil resiste e dá uma resposta cidadã ao arbitrário e às brutalidades. As Igrejas estão no centro desta mobilização e participam activamente na preparação de eleições consideradas como um antídoto à guerra e à deliquescência do Estado. Reportagem.

Ainda que nenhum automóvel a atravesse, desde a aurora, a pequena cidade mineira de Kamituga, na orla do Sul Kivu e do Maniéma, é invadida pelo ruído: o rumor que se eleva do mercado onde as pessoas se agitam para comprar artigos a baixos preços vindos da China, os rádios e leitores de cassetes postos a tocar na máxima potência, o ruído das motocicletas rutilantes, quando os jovens que transportam o ouro até Bukavu fazem aquecer os motores a fim de impressionar o mais possível. Há também o habitual martelar dos pilões - lancinante como um ruído de campainhas, caprichoso, desde a aurora ao crepúsculo - esses martelos que as mulheres manejam e que substituem as máquinas, há muito tempo enferrujadas. Todo o dia, sete dias por semana, as mulheres de Kamituga, que abandonaram a agricultura e fugiram dos seus campos à borda da floresta, trituram as pedras que lhes trazem os escavadores e reduzem-nas a pequenos montículos de poeira cinzenta, que serão depois peneirados, enxaguados, até aparecerem partículas brilhantes, poeiras desse ouro tão cobiçado, que faz a riqueza e a desgraça da região. O salário destas mulheres, atribuído pelos escavadores de quem dependem, não vai além de... um dólar por dia! Mas não se lamentam e explicam que, pelo menos na cidade, gozam de alguma segurança e não correm o risco de serem raptadas ou violadas pelos Interhahamwe, esses Hutus ruandeses que se escondem nas florestas do Maniéma.

No entanto, quando se ultrapassa a cerca da paróquia, o rumor de Kamituga diminui e dá lugar a um ambiente estudioso. Ao lado do escritório do abade Jean-Claude, cura da paróquia, algumas mulheres reúnem-se à volta de Dévote várias vezes por semana. Não se trata aqui de catecismo nem de obras sociais, ainda que essas mulheres, o mais das vezes sós e com filhos a cargo, careçam de tudo e devem também quebrar pedras para poderem sobreviver. O motivo dos encontros é simples e ambicioso: querem aprender a ler e escrever o mais depressa possível, como nos explica Dévote: "querem ser capazes de cumprir o melhor possível o seu dever eleitoral".

Dévote, que trabalha como enfermeira no hospital próximo dali (um hospital ignorado pela assistência internacional e que apenas funciona graças às contribuições voluntárias dos doentes), traduz de bom grado o sentimento das suas concidadãs: elas não têm bilhete de identidade, nunca foram inscritas no registo civil e sabem que a sua inscrição nos cadernos eleitorais lhes permite obter documentos de identidade. Mas estas mulheres compreenderam, sobretudo, que as eleições lhes vão permitir, pela primeira vez na sua vida, escolher os seus dirigentes a todos os níveis: local, nacional e presidencial. E insistem: "Aqui, no Leste, fomos ocupados, explorados, pilhados. Os responsáveis pelas nossas desgraças não desapareceram, amanhã apresentar-se-ão a sufrágio. Mas sabemos também que haverá outros candidatos, vindos da base, antigos sindicalistas, patriotas, pessoas que encarnaram a resistência. Queremos poder escolher, queremos ser observadoras nas mesas de voto e impedir fraudes".

Na altura da inscrição nos cadernos eleitorais, estas mulheres estiveram muito atentas e velaram para que não houvesse "não Congoleses", ou seja estrangeiros infiltrados, Ruandeses ou Burundianos, que se fizessem registar como cidadãos e foi com muita atenção que percorreram as listas das pessoas registadas, afixadas fora das mesas de voto.

O abade Jean-Claude supervisiona ao mesmo tempo a alfabetização das mulheres e a preparação das eleições e emprestou as salas das escolas paroquiais à comissão eleitoral independente. O seu optimismo é o da vontade: "Em Kinshasa, e ainda mais fora do país, não se imagina a capacidade de mobilização dos Congoleses. As pessoas querem votar e estão há muito tempo a organizarem-se para que esta votação se realize, incluindo nas regiões mais remotas... Esquece-se também que esta "auto-organização" popular é antiga, remonta ao tempo de Mobutu, que nos havia abandonado...".

Ilustrando esta mobilização das suas paroquianas, o abade cita os grupos Justiça e Paz, que existem em todas as paróquias, a permanência das comunidades cristãs de base, as "diaconias", existentes em todo o país, e elogia a excelente colaboração entre todas as confissões religiosas: "Quando os nossos vizinhos protestantes tiveram falta de material didáctico, demos-lhes as folhas que Justiça e Paz nos tinha distribuído e que tinham sido impressas graças a fundos vindos da Bélgica. Estas pequenas brochuras explicam, muito concretamente, como votar e como identificar eventuais fraudes. Serviram-se delas nas suas próprias reuniões de formação". Com efeito, na Bélgica, graças a uma campanha de sensibilização, efectuada pela organização católica flamenga Broederlijk Delen, por Justiça e Paz e outras ONG cristãs, sobre o tema "O Congo quer votar", foi possível recolher os fundos que apoiaram as organizações de base no Congo.

No terreno, o acordo celebrado entre as igrejas católica e protestante, os muçulmanos e as "igrejas do despertar", ou seja as seitas que se multiplicam em todo o país, é uma realidade: todas as confissões religiosas se congregaram para se absterem de proselitismos e uniram os seus esforços para formar os seus fiéis para as eleições. Tal acordo é crucial neste país onde os cidadãos, praticamente sem excepção, reivindicam uma pertença religiosa.

O desafio do abade Malu Malu
É provável que esta determinação das organizações de base se mantenha, apesar das mensagens contraditórias que emanam das hierarquias. Com efeito, parece não ter havido entendimento entre o presidente da Comissão Eleitoral Independente (CEI), o abade Malu Malu, fortemente apoiado pela base, e a conferência episcopal.

Pequeno, olhos cintilantes num rosto muito móvel, o abade, que se tornou numa personagem central da política congolesa, é originário de Butembo, região de Nande, no Leste do Congo. Após o seu doutoramento em ciências políticas na Universidade de Grenoble, foi nomeado reitor da Universidade de Graben, em Butembo, inteiramente financiada por fundos privados e considerada a melhor da região. Nomeado para a chefia da CEI, o abade manteve o seu relacionamento com as comunidades cristãs de base e, à margem do Estado e das organizações internacionais, dispõe de uma impressionante rede de contactos a nível das paróquias. É esta base popular que lhe permite mostrar-se filosófico perante os duros golpes que lhe são desferidos pela hierarquia: com efeito, a conferência episcopal do Congo, presidida pelo Monsenhor Monsengwo, que dirigiu em tempos a Conferência Nacional Soberana (1991-1992) e conservou uma certa nostalgia pela política activa, tem-se distanciado do presidente da CEI, assegurando que este último não podia comprometer a Igreja como instituição.

Estas reservas preocuparam os Ocidentais, que financiam sem contar as inscrições nos cadernos eleitorais e o futuro escrutínio (só da parte da União Europeia, a adição ascende a 149 milhões de dólares) e foram efectuadas pressões discretas, através do Vaticano, sobre a hierarquia congolesa para que esta não retirasse o seu apoio ao processo eleitoral.

A inscrição de vinte milhões de eleitores, que decorreu em todo o país apesar das dificuldades logísticas e das instruções de boicote lançadas por certos partidos, como a UDPS (União Democrática para o Progresso Social) do Sr. Etienne Tshisekedi, demonstra também até que ponto o povo se manteve de pé, apesar da falência do Estado congolês, repetidamente descrita: os simples cidadãos continuam desejosos de formar uma nação, organizaram-se para sobreviver e resistir à agressão estrangeira e estão, na sua grande maioria, determinados a ir às urnas. Para muitos, a única frustração é não terem podido inscrever-se na devida altura nos cadernos eleitorais.

Os limites da participação popular
Esta capacidade de "auto-organização" da população congolesa escapa frequentemente, e às vezes até desgosta, as agências da ONU e as equipas humanitárias, que preferem ter a sensação de actuar numa tábua rasa, onde tudo está por reconstruir, refazer.

Acontece que no terreno, por exemplo, equipas de Médicos sem Fronteiras, ansiosas por distribuir medicamentos e dispensar cuidados médicos sem os fazerem pagar a uma população extremamente pobre, colidem com o pessoal de saúde congolês. Ambas as partes esgrimem argumentos pertinentes: MSF adianta que a política de cobrança dos custos elevados dos cuidados de saúde nega o acesso aos dispensários a uma grande maioria da população, ao passo que os "locais", médicos e enfermeiros, recordam que se as fracas estruturas de saúde, que datam da época colonial e dos primeiros anos do regime Mobutu, não desapareceram, apesar da ausência de qualquer apoio oficial, é porque as populações locais se habituaram a assumir elas próprias o ónus de tais cuidados. Nos dispensários e centros de saúde, incluindo nos que dependem de instituições religiosas, é solicitada aos doentes uma contribuição, mesmo simbólica, e muitos receiam que a ajuda estrangeira, ao restaurar a gratuitidade, faça desaparecer estes reflexos de auto-suficiência há muito tempo enraizados. É verdade que, no Congo, há muito tempo que os cidadãos sabem que não podem contar com o Estado: em crise económica desde o final da década de 70, o regime mobutista, preocupado em manter-se no poder e em enriquecer as suas elites, delegou durante muito tempo o "social" às cooperações estrangeiras, completamente indiferente perante as necessidades da população, tanto mais que não havia nenhuma eleição livre e democrática que o pudesse sancionar.

Desde o início dos anos 90, o regime, perto do colapso e em desgraça, foi penalizado pelos Ocidentais que, ao retirarem todas as cooperações directas, abandonaram realmente as populações beneficiárias. Após a queda do regime Mobutu, os Congoleses viveram cinco anos em guerra mortífera; depois, após os acordos de Sun City, dois anos de transição em que o sector social foi a última das preocupações dos seus dirigentes, rendidos à força das armas.

Apesar disso, mesmo se por vezes os invade a sensação de serem abandonados por Deus e pelos homens, os Congoleses bateram-se sempre contra a adversidade. Em todo o país, tanto no campo como nas cidades, quando se lhes pergunta "Como estão?", dão esta resposta clara e evasiva "Vai-se andando conforme se pode, um pouco, apenas um pouco". Ou seja: "A situação é difícil, mas agarramo-nos ao que há, resistimos e esperamos que amanhã seja melhor..."
Por outras palavras, faz-se o que se pode. A chave deste desenrascanço está na solidariedade familiar, no apoio dos familiares que vivem na cidade ou, melhor ainda, que conseguiram ir para o estrangeiro, de onde enviam dinheiro para os familiares que ficaram no país. Não é possível calcular os montantes assim transferidos, mas vão muito além dos orçamentos da ajuda internacional.

As redes eclesiásticas também desempenharam o seu papel, e o circuito das missões manteve-se intacto, apesar do envelhecimento dos padres estrangeiros. Com tudo o que isso implica, as informações comunicadas por fonia (e que, retransmitidas pela agência Misna, foram muitas vezes as primeiras a denunciar os massacres cometidos no Leste do país), as possibilidades de recolha de fundos no estrangeiro, os circuitos invisíveis que permitem a transferência dos capitais, a distribuição da ajuda fora das redes do poder, etc.

Os Congoleses também se saíram bem desenvolvendo ao máximo associações profissionais e comités de todo o tipo. Mesmo nas aldeias mais distantes, é ilusório querer interrogar, sem qualquer introdução, as mulheres do mercado, os ciclistas que fazem as vezes de motoristas de táxi (os tolekas de Kisangani) ou os jovens que circulam ouvindo os seus transístores: na realidade, todos fazem parte de um comité ou de uma associação e exigem que o "estrangeiro" se dirija primeiramente ao seu "delegado" ou ao seu "presidente". Este último exprimir-se-á em nome deles, resumirá a sensação geral e, sem perda de tempo, apresentará ao visitante "a lista das necessidades".

As igrejas do despertar
Se os católicos, os kimbanguistas e os protestantes desenvolveram imensas redes de solidariedade, que durante muito tempo substituíram a ajuda internacional inexistente ou um Estado em falta, as chamadas igrejas do despertar implantaram-se igualmente em massa no território: o Catanga recebeu o Kitawala (uma variante das Testemunhas de Jeová) vindo da Zâmbia e multiplicaram-se pelo país os grupos de oração. Nas grandes cidades, verifica-se que um dos efeitos da crise foi o desaparecimento dos ngandas (cafés ou restaurantes) que deram lugar a pequenas igrejas de bairro, apresentadas com toda a publicidade pelos pastores, que ali encontraram, não só uma ocasião de recolhimento, mas também, se não sobretudo, uma ocasião de se enriquecerem ao solicitarem contribuições pecuniárias aos fiéis.

Estas igrejas do despertar também estão ligadas à emergência de um novo fenómeno, "as crianças-feiticeiras": as famílias persuadem-se que a origem das suas desgraças se deve ao "feitiço" que um dos filhos teria lançado e acontece mesmo que este se convença que está dotado de poderes sobrenaturais ou maléficos. O desenfeitiçamento é da competência do pastor, pago pela família, acontecendo mesmo que a criança "culpada" seja posta fora de casa, indo então engrossar as coortes de crianças da rua. A criança pode também ficar a cargo do "religioso", que não se privará de recorrer à violência física e aos maus tratos. Esta explosão das "seitas" e das práticas mágico-religiosas reflecte a profunda desestruturação social criada pelos anos de guerra, pelo êxodo rural e pela deslocação forçada das populações. Resta esperar que, se o país retomar a senda do desenvolvimento, os Congoleses consigam preservar o melhor da sua prática religiosa e da sua "economia da solidariedade", desfazendo-se de todas as derivas.