Xavier
Zeebroek Como responder ao desafio dos Estados falidos ou frágeis? Os que insistem nas ameaças que eles representam para a comunidade internacional preconizam frequentemente a intervenção directa ou, mesmo, a sua colocação sob tutela. Mas não seria preferível reconsiderar a ajuda ao desenvolvimento? Pode-se consagrar uma parte desta para reconstruir um Estado desmoronado e financiar, por exemplo, as suas forças de segurança? Para aos doadores mais ricos, a resposta é claramente positiva. O autor assinala, no entanto, os riscos e as dificuldades que advêm de uma necessária restauração do Estado de Direito e, por conseguinte, do poder dos Estados. Hoje em dia, não é raro que um país doador decida, em situação de emergência, pagar vários meses de salários em atraso aos funcionários de um país africano. Será isso ajuda ao desenvolvimento? Não, certamente. Mas será possível executar programas de desenvolvimento sem fiéis servidores do Estado? Recuo no tempo: no início dos anos 70, ergueram-se numerosas vozes na Europa e na América do Norte contra a gestão desordenada e desonesta dos fundos públicos aplicados às políticas de ajuda. O alvo das graçolas da época era o elefante branco, ou seja, uma metáfora para designar um projecto faraónico que poucas repercussões tinha para a população. Através dele, era toda a cooperação de Estado a Estado que era posta em causa, porque beneficiava muitas vezes as castas dirigentes dos países do Terceiro Mundo. É verdade que, em plena Guerra Fria, a cooperação para o desenvolvimento servia também para apoiar regimes amigos, qualquer que fosse a sua legitimidade ou probidade. Na altura, surgiu uma nova geração de organizações não governamentais (ONG), que proliferaram graças a um conceito original: uma cooperação que ligava directamente pessoas do Norte e do Sul e curto-circuitava os Estados e os seus arcanos burocráticos. Emergiram então o desenvolvimento comunitário, o micro-crédito, o reforço das capacidades locais e o apoio à estruturação de uma sociedade civil. Todas estas abordagens são ainda hoje professadas por muitas ONG. Há que reconhecer que é o meio mais simples de ajudar os mais pobres e de contornar, ao mesmo tempo, os funcionários corruptos. A fórmula teve um tal sucesso que mesmo os Estados doadores contribuíram e, com eles, poderosas instituições internacionais, como a União Europeia ou o Banco Mundial. Primeiro, co-financiando1 milhares de projectos de ONG em todo o mundo, depois, tornando-se operador directo do micro-desenvolvimento. É o que se chama pudicamente a cooperação descentralizada, onde o doador dialoga sem intermediário com as autoridades municipais ou provinciais, até mesmo com grupos locais representativos. Primeiro a lei e
a ordem Entretanto, é grande o embaraço das agências de desenvolvimento, porque endireitar e apoiar denodadamente um Estado é uma diligência absolutamente oposta aos seus princípios. Mas o mais delicado consiste em fazer aceitar um apoio maciço à reconstrução da segurança nacional. Será que vão ser compradas armas por conta da ajuda ao desenvolvimento? Felizmente, não é esse o caso e os doadores afirmam com veemência que não. Comprova-o um interessante documento do Comité de Ajuda ao Desenvolvimento da OCDE (Organização de Cooperação e Desenvolvimento Económico)2 , o clube dos doadores ocidentais. Numa reunião em Março de 2005, peritos de alto nível descobriam a lista das novas despesas que lhes era proposta para incluir no cálculo oficial da ajuda pública ao desenvolvimento, onde constava, nomeadamente, o apoio aos Ministérios da Defesa (mas apenas para actividades não directamente militares), a recolha e a destruição de armas (mas não pela força nem pelo pessoal militar). Se, para os agentes de terreno, esta diligência se aparenta à do contorcionista, muitos responsáveis pela cooperação não têm estas reservas. Na nova estratégia da União Europeia para a África, o Comissário do pelouro do desenvolvimento, Louis Michel, propõe que a UE desenvolva "uma estratégia e uma capacidade de promoção da reforma do sector da segurança (RSS) na África"3 . Ora, esta famosa RSS mais não é que a ajuda à criação de novos exércitos nacionais integrados, à sua formação para a disciplina e para as técnicas modernas de combate e, finalmente, ao seu equipamento completo. Por conseguinte, uma parte do dinheiro do desenvolvimento servirá para objectivos militares, o que deixa as ONG do Norte a ranger os dentes. Mas poderão elas negar que o desenvolvimento sustentável é inseparável da paz e da segurança? Doze princípios,
nove cobaias Para concluir este longo processo de reflexão, a OCDE elaborou doze princípios para um apoio internacional eficaz aos Estados frágeis5. Por detrás da gíria tecnocrática, vislumbra-se a determinação dos doadores de racionalizar, harmonizar, coordenar, planificar e dar mais coerência e flexibilidade às suas intervenções. Mais palavras bonitas sem sequência? Talvez não. Alguns Estados membros da OCDE comprometeram-se a executar estes doze princípios em nove Estados "cobaias"6. A Bélgica, através do seu ministro da Cooperação, Armand de Decker, propôs-se para assegurar a coordenação do exercício na República Democrática do Congo. O desafio consistirá em estabelecer uma nova política de cooperação baseada na coordenação dos diferentes doadores com o novo governo que sairá das eleições no final do período de transição. Por conseguinte, 2006 será o ano da aplicação efectiva destes princípios e da sua avaliação para determinar a sua pertinência e impacto reais, a fim de alargar, eventualmente, a experiência a outros Estados frágeis. As grandes ONG, como a Actionaid ou a Oxfam, não se opõem a este processo, mas recordam que há também grandes princípios a reexaminar, como, por exemplo, a ajuda ligada ou a condicionalidade da ajuda à abertura dos mercados e à privatização dos serviços7. A Rede Europeia das ONG para a África Central (EURAC) gostaria que a cooperação com todos os países dos Grandes Lagos8 se baseasse no respeito pelos direitos do homem. Por isso, emite sérias reservas, por exemplo, a propósito da ajuda atribuída ao Ruanda, um país que, apesar das graves infracções à liberdade de expressão, beneficia de todas as atenções europeias. Uma certa amargura
Como não sentir uma certa amargura? Em quarenta e cinco anos, o desenvolvimento não atingiu nenhum dos objectivos fabulosos que lhe foram fixados no júbilo da descolonização. Descobre-se hoje que ainda não se tinha batido no fundo: a engrenagem do subdesenvolvimento, essa, funciona maravilhosamente, arrastando as suas vítimas para um abismo cada vez mais profundo. 1 Em cada projecto co-financiado,
o Estado ou a organização internacional solicitado(a)
intervém duplicando, triplicando ou quadruplicando a entrada
inicial de fundos efectuada pela ONG. Na Bélgica, por exemplo,
a primeira lei sobre o co-financiamento das ONG que se dedicam ao desenvolvimento
data de 1974.
Para
saber mais:
|