Crime sem fronteiras
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Ana Arana
Ana Arana é jornalista de investigação. Especialista de organizações criminosas, colaborou em inúmeras publicações, nomeadamente em Foreign Affairs, Newsweek, The Columbia Journalism Review, Business Week, The Village Voice e Marie Claire. Assegurou igualmente muitas formações aos órgãos de informação e fez inquéritos para a Sociedade Interamericana de Imprensa sobre o assassínio de jornalistas na América Latina.


Na América Central, a explosão da delinquência de direito comum, acicatada por bandos criminosos transnacionais, os maras, compromete o desenvolvimento e a democracia e ameaça toda a região e mesmo os Estados Unidos. Inquérito.

Os membros dos grupos de malfeitores são cerca de 40 000 nas Honduras e entre 10 000 e 30 000 no Salvador. Ao todo, os maras terão entre 70 e 100 000 membros na América Central. Tatuados, armados, os membros destes bandos juvenis batem-se para controlar bairros, aldeias ou mesmo espaços nas prisões onde se amontoam. No Salvador, há zonas inteiras sob o seu controlo. Outras são territórios contestados e palco de violentos ajustes de contas.

Este problema dos grupos de malfeitores que oprime a região surgiu, em grande parte, da decisão tomada por Washington, em meados da década de 90, de expulsar do território americano os delinquentes nascidos no estrangeiro, muitas vezes sem prevenir os seus países de origem dos seus antecedentes criminais. Não há números precisos de pessoas condenadas que assim foram transferidas para a América Central desde o início das deportações, mas funcionários locais consideram que, só entre 2000 e 2004, o número exceder 20 000. Os marabuntas ou maras, como lhes chamam (por alusão a uma formiga mortal), tornaram-se no desafio mais grave lançado à paz na região desde o fim das guerras civis dos anos 90. Mas o perigo que estes grupos de malfeitores representa não se limita à América Central. Aproveitando o crescimento explosivo da população juvenil e a acumulação de problemas sociais não resolvidos, os grupos de malfeitores começaram a movimentar-se fora das suas fronteiras. Na sequência da adopção de políticas fortemente repressivas, que, por exemplo, transformaram a simples tatuagem em crime punido com pena de prisão, muitos membros dos grupos de malfeitores fugiram para o México e os Estados Unidos, onde se instalaram em grupo, tanto na cidade como no campo, e se misturaram com as populações de origem centro-americana.

Mobilidade
Uma série de ataques ocorridos entre o Texas, a Virgínia e as Honduras ilustra a mobilidade aterrorizadora e o carácter completamente alienado destes novos grupos de malfeitores. Em Dezembro de 2004, em Chamalecon, nas Honduras, 13 membros da Mara Salvatrucha-13 (MS-13) crivou de balas um autocarro, matando 28 passageiros inocentes. Queriam muito simplesmente dar uma lição ao presidente hondurenho, Ricardo Maduro, que havia promulgado uma política de rigor e de "tolerância zero" contra os grupos de malfeitores. Segundo as acusações, o chefe dos assaltantes era Lester Rivera-Paz, um membro do bando dos Normandie Locos (os loucos da Normandia), um grupo ligado à Mara Salvatrucha, um dos 13 grupos afecto ao grupo de malfeitores em Los Angeles.

Polícias americanos prenderam Lester Rivera-Paz no Texas imediatamente depois dele ter passado a fronteira dos Estados Unidos, quando fugia das autoridades hondurenhas. Lester já foi deportado quatro vezes e o seu registo criminal em Los Angeles é impressionante. O seu bando está presente em Fairfax (Virgínia), Nova Iorque e em várias outras cidades dos Estados Unidos. Um inquérito sobre o assassínio de uma jovem de 16 anos por membros dos Normandie Locos quatro anos antes permitiu saber como o bando circulava no território americano para instalar novas "antenas".

Outros bandos de Los Angeles também se implantaram na costa leste. "A MS-13 é uma organização muito unida difícil de penetrar", afirma um detective afecto à brigada antibandos de New Jersey, um Estado onde o grupo se instalou em várias cidades.

A reacção do FBI
A facilidade com que os grupos de malfeitores se deslocavam aos seus países de origem e regressavam aos Estados Unidos levou as autoridades americanas a criarem uma rede regional de informações, que deveria permitir-lhes seguir o rasto de membros individuais destes grupos criminosos. Os Estados Unidos anunciaram igualmente que alterariam a sua política de divulgação de registos criminais. O FBI (Federal Bureau of Investigation) abriu uma delegação em São Salvador para coordenar as suas actividades contra os grupos de malfeitores. Em Setembro, o FBI anunciou a detenção de várias dezenas de membros da SM-13 em várias cidades.

No entanto, os grupos de malfeitores continuam a marcar presença nos lugares onde vivem os imigrantes. A sua presença foi detectada em 33 Estados americanos, onde oferecem a sua "protecção" e a sua "amizade" aos milhares de Centro-americanos e de Mexicanos sem papéis que vão trabalhar nos Estados Unidos. A explosão demográfica na América Central deixou numerosos jovens sem possibilidades de futuro. Muitos deles, adolescentes de 14 e 15 anos, instalaram-se discretamente nos Estados Unidos para encontrarem trabalho. Se muitos destes jovens migrantes já faziam parte dos grupos de malfeitores antes de entrarem nos Estados Unidos, outros aproximaram-se deles à sua chegada ao território americano. De acordo com o FBI, estes grupos de malfeitores oferecem raparigas, droga e um sentimento de pertença aos jovens. Os grupos de malfeitores recrutam até nas escolas americanas, onde visam os jovens centro-americanos, às vezes a partir da idade de 8 anos.

Na sua expansão, os mareros [membros dos maras] lançam mão de todos os meios para atingirem os seus fins. Tiram mesmo partido do facto de as autoridades federais americanas criarem equipas especiais contra a MS-13. O interesse que eles representam para o FBI dá-lhes certo prestígio junto dos jovens e serve-lhes de moeda de marketing. No Estado de Maryland (Baltimore), um antigo membro do grupo de malfeitores afirmou que muitos jovens da sua escola queriam fazer parte da MS-13.

Limites da repressão
O desenvolvimento dos grupos de malfeitores resulta em parte da falta de coordenação das autoridades estado-unidenses, mas também da falta de conhecimento do fenómeno. Apesar de ciclos de formação na polícia e do envio de peritos, que viajam por todo o país para ensinar os seus colegas a identificar estes novos grupos de malfeitores, continuam a proliferar organizações criminosas. Os seus membros têm a arte de se camuflar. Se usam habitualmente roupa azul e branca e se reconhecem pelos seus cintos, calçado ou gestos, estão sempre prontos a mudar de visual se se aperceberem de que a polícia os localizou. Recentemente, em Queens, nos subúrbios de Nova Iorque, membros da MS-13 usavam camisas e fitas pretas.

As medidas adoptadas contra a MS-13 foram apenas repressivas. No entanto, a maior parte dos peritos considera que a maneira mais eficaz de pôr termo ao fenómeno dos maras seria ajudar os jovens antes que estes bandos os contactassem. "O problema é que as pessoas querem resultados imediatos", declara o detective Moreno, que combate grupos de malfeitores há 29 anos. Viu aparecer os primeiros membros da MS-13, quando esta se constituiu para responder aos ataques dos bandos méxico-americanos nos bairros pobres de East Los Angeles.

Em muitas cidades dos Estados Unidos, a polícia deve aprender a trabalhar com a comunidade imigrada local. "É difícil perseguir os grupos de malfeitores porque é difícil obter testemunhos, afirma o Sr. Moreno. Para levar as pessoas a falar, é necessário convencê-las que é do seu interesse. Vêm de outros países, com outras realidades, e não vêem em que é que a polícia os poderia ajudar, especialmente se não têm papéis. O que convinha mesmo era entrar nestas comunidades que se tornaram reféns dos bandos".

A questão dos grupos de malfeitores agravou-se após os atentados de 11 de Setembro. Em Nova Iorque, onde a polícia e os procuradores tinham posto termo a um grupo de traficantes de droga particularmente sofisticado, chamado Crazy Cowboys (vaqueiros loucos) e a vários bandos jamaicanos, não se procedeu à substituição dos detectives que, entretanto, se reformaram. Pior ainda, muitos dos detectives foram afectados à luta contra o terrorismo.

No início de 2005, o Ministério da Justiça constituiu uma equipa especial com a missão de seguir a MS-13 e outros grupos de malfeitores, coordenando os seus esforços com o serviço de imigração, a agência antidroga e a polícia das fronteiras. Esta equipa já deteve 1 500 membros de organizações criminosas, enviou alguns deles para as prisões americanas e deportou outros para a América Central. As autoridades preparam a criação de um novo centro nacional de informação sobre os bandos, que será dotado de 10 milhões de dólares, e anunciaram que os grupos de malfeitores serão doravante considerados como "empresas e organizações criminosas". Washington prepara uma nova lei, especialmente adaptada ao fenómeno dos maras, que permitirá aplicar-lhes penas muito mais severas, de 10 a 30 anos de prisão.

Os governos da América Central limitaram largamente as suas acções a medidas militares e policiais. Com isso, mais não fizeram que agravar o problema. Após dois anos de política de Mano dura, as prisões estão cheias. Mas a história não termina atrás destes grades, porque as prisões servem de classes terminais para os grupos de malfeitores e há inúmeros casos de evasões.

Necessidade de reformas
Os governos centro-americanos afectados por este fenómeno mediatizaram fortemente as suas medidas repressivas para evitarem agir sobre outra frente igualmente urgente: o reforço das instituições democráticas locais. Com efeito, desde o fim das guerras civis, as reformas judiciais, legislativas e sociais foram-se perdendo pouco a pouco nas lutas partidárias.

Tanto nos Estados Unidos como na América Central, os Governos não investem suficientemente nas crianças pobres. Em países onde 50% da população tem menos de 15 anos, é necessário conceber programas preventivos em matéria de educação, emprego e protecção dos jovens que queiram sair da alçada dos grupos de malfeitores. Para enfrentar este problema, qualquer campanha que se destine a combater os grupos de malfeitores terá de se atacar às causas subjacentes que os alimentam: uma corrupção endémica, o mau funcionamento do sistema político, o tráfico de droga, a pobreza e a superlotação.

 

Para conocer más:

 

Em francês

TAMAYO Eduardo G., "Les "maras", gangs ou bandes de jeunes: une nouvelle menace internationale ?", Alai, 2 agosto de 2005, traducido por Dial, Dial D2831 de 16 a 31 de Outubro de 2005.
http://www.dial-infos.org/05_archives/ html_05texte/dialD2831.html

REVELLI Philippe, "Derrière la violence des gangs au Salvador", Le Monde diplomatique, Março de 2004.
http://www.monde-diplomatique.fr/2004/03/REVELLI/11063

 

Em inglês

ARANA Ana, " How the Street Gangs Took Central America ", Foreign Affairs, Maio/Junho de 2005.

CAVALLARO James Louis, Crime, Public Order and Human Rights, International Council on Human Rights Policy, Genebra, 2002.
www.ichrp.org

DOWDNEY Luke (Coord.), Neither War nor Peace. International comparisons of children and youth in organised violence, COAV/Viva Rio/Iansa/Iser, Río de Janeiro, 342 páginas.

KOONINGS Kees/KRUIJT Dirk (Eds.), Armed Actors: Organised Violence and State Failure in Latin America, Zed Books, Londres, 2003.

HUME Mo, Armed Violence and Poverty in El Salvador, Centre for International Cooperation and Security, University of Bradford, Novembro de 2004, 39 páginas.

Em espanhol

SAVENIJE Wim, "La Mara Salvatrucha y el Barrio 18 St.", Foreign Affairs en Español, Abril-Junho de 2004, pp. 38-46.




A cidade das mortas e a globalização selvagem

Pierre Cherruau


Em Ciudad Juarez, cidade fronteiriça com os Estados Unidos, foram assassinadas cerca de 400 mulheres desde 1993. Considerada a capital mundial do "feminicídio", esta cidade deu azo a muitos fantasmas, que vão do serial killer aos crimes de classe contra operárias das maquiladoras.

No entanto, após um inquérito meticuloso, Marc Fernandez e Jean- Christophe Rampal1 mostram que, nas raízes do mal, se encontra sobretudo um sistema, um reino da droga e corrupção. As suas reportagens em Ciudad Juarez põem a nu o controlo da cidade pelos narcotraficantes e pela polícia municipal, que comete diversos crimes por conta dos traficantes. Os desaparecimentos não elucidados de mulheres inscrevem-se nesta lógica mortífera.

Fernandez e Rampal recolheram muitos testemunhos inéditos, nomeadamente o de José Luís Santiago Vasconcelos, chefe da luta antidroga a nível federal e número 2 do Ministério da Justiça: este testemunho essencial dá muita credibilidade à tese de crimes cometidos pelo cartel de Ciudad Juarez, com a cumplicidade da polícia. "Eles têm muito dinheiro e muito poder, o que produz uma espécie de chamariz, explica José Luís Santiago Vasconcelos. A mensagem que difundem é: "Aqui, estamos em casa, somos os patrões, podemos fazer o que quisermos sem qualquer receio. E quem não nos seguir, será morto". Esta impunidade tem uma consequência directa: conduz a outros tipos de assassínios, de crimes sexuais e de assassínios em série, contra as mulheres nomeadamente". É uma verdade aterrorizadora e essencial num laboratório da globalização selvagem.


(1)A cidade que mata as mulheres
Inquérito em Ciudad Juarez
Marc FERNANDEZ y Jean-Christophe RAMPAL
París, Hachette Littératures, 2005
281 páginas.